O discurso semiótico em “Três Homens em Conflito”

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25 de setembro de 2026 | 0 Comentários

Esta análise foi originalmente produzida como trabalho acadêmico para a disciplina Semiótica da Mídia, durante minha graduação em jornalismo na Universidade Católica de Pernambuco. O exercício partiu da proposta de compreender como elementos narrativos, visuais e sonoros de uma obra audiovisual participam da construção de sentidos. O filme escolhido foi “Três Homens em Conflito”, clássico dirigido por Sergio Leone em 1966.

Ambientado nos Estados Unidos durante a Guerra de Secessão, Três Homens em Conflito (Il buono, il brutto, il cattivo, 1966) apresenta uma narrativa em que três figuras arquetípicas (o bom, o mau e o feio) unem-se de forma instável em busca de um tesouro em ouro enterrado em um cemitério. Cada um dos personagens detém apenas uma parte da informação necessária para localizar a fortuna, o que os obriga a uma aliança precária marcada pela desconfiança, pela manipulação e pela violência. À medida que a jornada avança, o filme revela a tensão constante entre o individualismo e a cooperação forçada, utilizando a paisagem desértica e a guerra civil como pano de fundo simbólico para discutir a ganância e a moralidade.

O Bom, o Mau e o Feio

Lançado em 1966, Três Homens em Conflito, dirigido por Sergio Leone, é um dos filmes que ajudaram a transformar o gênero western. A obra subverte seus arquétipos clássicos e estabelece uma nova lógica narrativa e estética conhecida como spaghetti western. O subgênero reúne faroestes produzidos majoritariamente por cineastas italianos, muitos deles filmados na Europa e com orçamentos reduzidos, marcados por uma abordagem mais estilizada, violenta e crítica do mito do Oeste norte-americano.

Inserido no contexto da Guerra de Secessão nos Estados Unidos, o filme acompanha a jornada de três personagens moralmente ambíguos que se unem, em meio à violência e à desconfiança, na busca por um tesouro enterrado. A trama, aparentemente simples, ganha densidade simbólica e discursiva ao revelar, em suas camadas visuais e sonoras, uma reflexão sobre a ganância, a ética e a sobrevivência em um mundo marcado pela corrupção e pelo caos.

Três Homens em Conflito pode ser compreendido como um texto audiovisual complexo, estruturado a partir de códigos que operam tanto no plano do conteúdo quanto no plano da expressão. A proposta desta análise é observar como Sergio Leone constrói sentidos por meio de escolhas narrativas, visuais e sonoras que dialogam com diferentes sistemas de significação. O objetivo é compreender como o filme articula suas estratégias discursivas para representar conflitos morais e ideológicos, utilizando uma linguagem cinematográfica marcada pela ironia, pela teatralidade e pela tensão.

Foto: Divulgação

O referencial teórico parte principalmente da semiótica discursiva de base greimasiana. A partir dela, é possível investigar o chamado percurso gerativo de sentido em seus três níveis – fundamental, narrativo e discursivo – por meio das categorias de manipulação, competência, performance e sanção, apresentadas por Algirdas Julien Greimas e Joseph Courtès em Dicionário de semiótica (1983).

Essas categorias ajudam a observar como os personagens Blondie, Tuco e Angel Eyes se relacionam com o objeto de valor – o ouro – estabelecendo contratos, alianças e rupturas que movimentam a narrativa.

Também entram nessa leitura as contribuições da semiótica da cultura, formulada por Iúri Lotman. Para o autor, o cinema pode ser compreendido como um sistema modelizador da realidade e, portanto, como um texto cultural inserido na semiosfera. Essa abordagem ajuda a compreender o spaghetti western como um fenômeno cultural que reinterpreta o imaginário do Velho Oeste a partir de uma perspectiva europeia.

A trilha sonora de Ennio Morricone também ocupa um papel importante nessa leitura. Para além de acompanhar as imagens, ela funciona como um elemento significante que participa diretamente da construção do sentido narrativo e emocional do filme.

A análise parte, portanto, de uma abordagem qualitativa e interpretativa, concentrada em três sequências: as cenas de apresentação dos personagens, o enforcamento de Tuco e o duelo final no cemitério. Esses momentos serão observados considerando como enquadramentos, montagem, ritmo, sonoridade e performance se organizam para construir um discurso sobre poder, desejo e moral.

Desenvolvimento

A análise se concentra em três sequências que sintetizam boa parte da estrutura narrativa e expressiva de Três Homens em Conflito: a apresentação dos personagens, o enforcamento de Tuco e o duelo final no cemitério. Esses momentos evidenciam os principais eixos do percurso gerativo de sentido – manipulação, competência, performance e sanção.

A leitura segue a semiótica discursiva greimasiana, em diálogo com a semiótica da cultura de Lotman e com a semiótica peirceana, segundo Lucia Santaella, aplicada às dimensões visual e sonora do filme.

I. Estrutura narrativa e organização dos sujeitos

Logo nas sequências iniciais, Sergio Leone estabelece o campo semântico da narrativa. O deserto, os rostos em close e os silêncios prolongados criam um universo simbólico em que a sobrevivência parece ocupar o lugar da moralidade. A alternância entre planos gerais e enquadramentos fechados produz o que Rodrigo Carreiro (2011) define como uma “estética da dilatação temporal”, na qual o ritmo narrativo é subordinado à tensão entre expectativa e ação.

Nesse contexto, cada personagem assume um papel narrativo distinto. Blondie (“o Bom”) representa a prudência e o cálculo; Angel Eyes (“o Mau”) encarna de forma inequívoca o antagonismo; e Tuco (“o Feio”) ocupa um ponto intermediário, oscilando entre esses dois extremos conforme suas oportunidades e impulsos. O contrato estabelecido entre eles tem como objeto de valor o ouro enterrado, cujo acesso depende de alianças temporárias e traições recorrentes. Trata-se de uma estrutura de junção e disjunção, na qual a manipulação e a perda movimentam a narrativa, como propõem Greimas e Courtès (1983).

Conforme observa Thiago Henrique Cardoso (2014), Leone reelabora os códigos do western clássico, substituindo o heroísmo pelo cálculo e o ideal moral pela sobrevivência. Essa ruptura, segundo o autor, inaugura uma “nova mitologia fílmica” que reflete a descrença nas narrativas de redenção típicas do cinema americano.

Sob a ótica de Lotman (2023), esse movimento corresponde à reinterpretação de um modelo cultural – o western – dentro de uma nova semiosfera europeia, na qual o filme atua como um texto de fronteira entre culturas.

II. A manipulação e a competência: o contrato entre Blondie e Tuco

A relação entre Blondie e Tuco ilustra o primeiro estágio do percurso narrativo: a manipulação.

A sequência do enforcamento encenado explicita a construção do contrato entre os dois personagens. Blondie manipula Tuco ao oferecer sua liberdade em troca de lucro, mas rompe o pacto quando decide abandoná-lo. Essa ruptura desloca a narrativa de uma situação de junção para uma de disjunção e estabelece o conflito que sustenta o desenvolvimento posterior. Leone organiza essa dinâmica por meio de uma mise-en-scène centrada na performance corporal e no olhar.

Segundo Jake Kola (2019), o diretor utiliza “a repetição de gestos e pausas como parte da gramática autoral”, transformando a ação física em signo narrativo. Essa escolha formal reforça o que a semiótica discursiva denomina competência: o domínio do saber e do poder de agir que define o papel de cada sujeito, conforme Greimas e Courtès (1983).

Do ponto de vista sonoro, a trilha de Ennio Morricone desempenha um papel fundamental na construção da significação. Jonathan Durham (2017) observa que “cada motivo musical funciona como um signo associado a um personagem, permitindo ao espectador reconhecer o sentido da ação mesmo na ausência de diálogo”.

A trilha, composta por assobios, sinos e guitarras elétricas, funciona como índice de tensão e ironia, articulando-se à narrativa de maneira semiótica: o som atua como interpretante da imagem e amplia seu campo de sentido, na perspectiva de Santaella (2002).

Foto: Divulgação

III. A performance e a sanção: o duelo no cemitério

A sequência do duelo no cemitério de Sad Hill sintetiza o percurso gerativo do filme.

O espaço circular formado pelas lápides e o enquadramento em espiral configuram o cenário da performance, no qual os sujeitos confrontam suas competências. A alternância de planos e o ritmo crescente da montagem criam uma estrutura de repetição e expectativa. Para Carreiro (2011), esse momento representa “a coreografia da tensão”, na qual o duelo é menos uma ação do que um ritual de significação.

No plano narrativo, a cena corresponde à etapa de sanção. Blondie obtém o objeto de valor, Angel Eyes é eliminado e Tuco permanece à margem, perpetuando o ciclo de desconfiança e engano. O resultado representa uma reorganização das posições narrativas – uma sanção pragmática.

Sob a perspectiva lotmaniana, o duelo final simboliza o fechamento do sistema textual. O cemitério, como espaço cultural, representa o limite da significação.

É nesse momento que o cinema de Leone transforma a violência em linguagem, convertendo o conflito físico em forma narrativa. Como afirma Cardoso (2014), “o faroeste de Leone não busca redenção, mas o reconhecimento da própria representação”.

IV. A construção audiovisual como sistema de significação

A articulação entre imagem, som e ritmo revela a coerência interna da estrutura cinematográfica.

A fotografia contrastada, o uso dos silêncios e a repetição de enquadramentos produzem uma gramática visual própria. De acordo com Kola (2019), o estilo de Leone se define pela “precisão geométrica do enquadramento e pelo controle absoluto da temporalidade”, elementos que transformam a mise-en-scène em discurso.

Na perspectiva da semiótica discursiva, o filme constrói um sistema de sentido baseado na repetição das categorias de junção e disjunção: o ganho e a perda, o contrato e a ruptura, a cooperação e a traição. A estrutura narrativa e a estética visual convergem para o mesmo princípio de organização simbólica: a instabilidade.

Como observa Carreiro (2011), essa é uma das marcas da modernidade no cinema de Leone: o herói cede lugar ao sujeito em crise, e o mito é substituído pela consciência da representação. Assim, a análise de “Três Homens em Conflito” demonstra que sua estrutura cinematográfica se fundamenta na relação entre forma e significação.

O filme constrói um discurso em que o audiovisual funciona como uma linguagem autônoma, articulando signos visuais, sonoros e narrativos em um sistema semiótico coerente. Essa integração reforça a ideia de que a obra de Leone constitui também uma reflexão sobre o próprio fazer cinematográfico – um texto cultural que traduz, por meio da linguagem fílmica, os códigos e as contradições de seu tempo.

Referências

Thiago Henrique Cardoso – O spaghetti western de Sergio Leone. Revista Livre de Cinema, 2014.

Rodrigo Carreiro – Era uma vez no spaghetti western: estilo e narrativa na obra de Sergio Leone. Revista Significação, 2011.

Rodrigo Carreiro – Era uma vez… a revolução: a trajetória de Sergio Leone nas páginas da Cahiers du Cinéma. Revista Aniki, 2021.

Jonathan Durham – The Good, the Bad and the Ugly: An Inside Look into One of Hollywood’s Greatest Scores. Berklee College of Music, 2017.

Algirdas Julien Greimas e Joseph Courtès – Dicionário de semiótica. São Paulo: Contexto, 1983.

Jake Kola – Film Auteur Sergio Leone. London: Independent Cinema Studies, 2019.

Iúri Lotman – Sobre a natureza da narrativa cinematográfica. Revista Estudos Semióticos, 2023.

Iúri Lotman – A estrutura do texto artístico. São Paulo: Perspectiva, 1993.

Lucia Santaella – A teoria geral dos signos: como as linguagens significam as coisas. São Paulo: Pioneira Thomson Learning, 2002.

Três Homens em Conflito (Il buono, il brutto, il cattivo) – Direção: Sergio Leone. Produção: Alberto Grimaldi. Itália, Espanha e Alemanha Ocidental, 1966.

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