Sempre achei curioso como algumas paixões surgem sem pedir licença. Elas não chegam anunciadas, não escolhem uma data específica para acontecer e, muitas vezes, só percebemos que sempre estiveram ali quando olhamos para trás. Comigo foi assim com o cinema. Não consigo apontar o exato momento em que me tornei apaixonada pela sétima arte, porque essa relação foi sendo construída aos poucos, filme após filme, lembrança após lembrança. O que sei é que, desde muito cedo, o cinema deixou de ser apenas uma forma de entretenimento e se tornou um lugar de descoberta, um convite permanente para conhecer mundos, pessoas e sentimentos que eu jamais encontraria vivendo apenas a minha própria vida.
Sou de São Bento do Una, no Agreste pernambucano, uma cidade com pouco mais de cinquenta mil habitantes. Durante anos, ela teve suas próprias salas de cinema, mas esse é um privilégio que pertence às gerações anteriores à minha. Quando cresci, elas já não existiam mais. Ouvi muitas histórias sobre um tempo em que bastava caminhar algumas ruas para assistir a um filme, mas a minha realidade foi outra. Para mim, o cinema sempre esteve em outra cidade. Era preciso viajar até Garanhuns ou Caruaru para acompanhar os grandes lançamentos, e talvez isso tenha feito com que cada ida ao cinema carregasse um significado diferente. Não era um programa improvisado para ocupar uma tarde livre; era um compromisso esperado, planejado…
Minha primeira lembrança dessa experiência me leva a 2008, quando entrei no Moviemax Cine Eldorado, em Garanhuns, para assistir a Homem de Ferro. Durante muito tempo, achei que essa memória sobrevivia por causa do filme. Afinal, eu estava conhecendo um personagem que marcaria uma geração inteira e daria início a um dos maiores fenômenos da cultura pop contemporânea. Hoje, porém, percebo que minha lembrança vai muito além de Tony Stark. O que realmente permaneceu comigo foi uma sensação quase impossível de explicar: a impressão de que, por algumas horas, o mundo havia sido colocado em pausa para que outra realidade pudesse existir diante dos meus olhos.
Diferentemente de outras formas de arte, o cinema nos convida a abandonar temporariamente a nossa própria vida para experimentar a de outra pessoa. Durante duas horas, carregamos os medos de personagens que nunca conheceremos, celebramos conquistas que não são nossas, choramos despedidas fictícias e comemoramos finais felizes escritos por alguém do outro lado do planeta. Existe algo humano nessa capacidade de sentir como nossas histórias que pertencem a completos desconhecidos.
Ao longo dos anos, conheci centenas de filmes. Alguns me emocionaram, outros me decepcionaram… Muitos foram esquecidos poucos dias depois dos créditos finais. Mas todos, de alguma maneira, ajudaram a construir a forma como enxergo o mundo. O cinema me apresentou lugares onde provavelmente nunca estarei, culturas que jamais conheci pessoalmente e pessoas completamente diferentes de mim, lembrando-me, ao mesmo tempo, do quanto somos parecidos.
Vivemos, no entanto, um momento curioso da história dessa arte. Nunca foi tão fácil assistir a um filme. Em poucos segundos, qualquer pessoa pode acessar um catálogo praticamente infinito sem sair de casa. O streaming revolucionou a forma como consumimos audiovisual, ampliou o acesso a cinematografias antes restritas e transformou os hábitos de milhões de espectadores – e isso é inegavelmente positivo. Ao mesmo tempo, essa facilidade acabou despertando uma pergunta que atravessa a indústria, os cineastas e também quem simplesmente ama cinema: quando tudo cabe dentro da tela de um celular, de um computador ou da televisão da sala, ainda faz sentido sair de casa para assistir a um filme?
Essa é uma pergunta que aparece, quase sempre, acompanhada de discussões sobre bilheterias, plataformas digitais, números de assinantes ou estratégias de mercado. Todas elas são importantes. Mas, para mim, existe uma questão anterior, talvez mais simples e infinitamente mais interessante. Antes de discutir o futuro das salas de cinema, talvez devêssemos nos perguntar por que elas se tornaram tão importantes para tantas gerações de espectadores. Afinal, se assistir a um filme fosse apenas consumir uma história, essa discussão provavelmente já estaria encerrada há muito tempo.

Um lugar projetado para acreditar
Existe uma frase atribuída ao cineasta francês Jean Cocteau que diz que “o cinema é a escrita moderna cujo tinteiro é a luz”. Antes de ser entretenimento, o cinema é uma experiência construída para mexer com os nossos sentidos. Cada enquadramento, cada movimento de câmera, cada escolha de iluminação, cada nota da trilha sonora e cada segundo de silêncio existem por um motivo. Nada está ali por acaso. Quando um diretor decide aproximar lentamente a câmera do rosto de um personagem ou prolongar alguns segundos de silêncio antes de uma revelação importante, ele está conduzindo nossas emoções com uma precisão quase invisível. O cinema sempre foi uma arte de controlar o tempo, o olhar e a expectativa do espectador.
Diferentemente de um livro, que nos convida a imaginar rostos e paisagens, ou de uma pintura, que congela um instante para contemplação, o cinema nos entrega um mundo inteiro em movimento. Somos convidados a caminhar por cidades que nunca visitamos, a observar pessoas que jamais conheceremos e a testemunhar acontecimentos impossíveis sem sair da cadeira. É uma arte que nos empresta outros olhos por algumas horas e, ao final da sessão, nos devolve aos nossos com a sensação de que alguma coisa mudou, mesmo quando não sabemos exatamente o quê.
Há alguns anos, pesquisadores passaram a estudar mais profundamente como nosso cérebro reage diante dessa experiência. Surgiu, então, um campo conhecido como neurocinema, dedicado justamente a compreender o impacto que os filmes exercem sobre a mente humana. Os resultados ajudam a explicar uma sensação que qualquer pessoa apaixonada por cinema conhece intuitivamente. Quando uma narrativa consegue capturar completamente nossa atenção, diferentes áreas do cérebro passam a responder de forma sincronizada aos estímulos da história. O suspense acelera os batimentos cardíacos, a alegria desperta sensações de recompensa, momentos de afeto estimulam mecanismos ligados à empatia. Em outras palavras, não estamos apenas observando uma história acontecer diante de nós; nosso cérebro reage a ela como se, em alguma medida, também participasse daquela experiência.
É por isso que tantas vezes saímos do cinema ainda carregando um filme dentro de nós. Quem nunca deixou uma sessão em silêncio, precisando de alguns minutos para reorganizar os próprios pensamentos? Quem nunca permaneceu sentado durante os créditos finais simplesmente porque ainda não estava pronto para voltar à realidade? O melhor cinema sempre ultrapassou os limites da própria projeção.
Essa capacidade de nos envolver emocionalmente talvez nunca tenha sido tão valiosa quanto agora. Vivemos em uma época marcada pela fragmentação da atenção. Quase tudo ao nosso redor foi pensado para disputar alguns segundos do nosso olhar.
Recebemos notificações enquanto trabalhamos, ouvimos podcasts enquanto dirigimos, respondemos mensagens durante as refeições e, muitas vezes, assistimos a um filme ao mesmo tempo em que navegamos pelas redes sociais. Tornou-se comum realizar várias atividades simultaneamente, como se a concentração plena fosse um luxo incompatível com a velocidade do mundo contemporâneo. Aos poucos, desaprendemos a dedicar atenção integral a uma única coisa.
O cinema, entretanto, continua exigindo exatamente isso de nós. Não por imposição, mas por natureza. Grandes histórias pedem entrega. Elas exigem que aceitemos acompanhar seus personagens no ritmo em que foram concebidas, respeitando seus silêncios, suas pausas e suas explosões. É curioso perceber como esse gesto, aparentemente simples, tornou-se quase um ato de resistência. Em um tempo em que tudo pode ser acelerado, resumido ou interrompido, permanecer diante de uma narrativa até o fim, sem pressa e sem distrações, talvez seja uma das formas mais sinceras de contemplação que ainda cultivamos.
Uma falsa disputa entre o sofá e a poltrona
Em algum momento dos últimos anos, passamos a tratar o futuro do cinema como se ele dependesse da vitória de um lado sobre o outro. De um lado, as salas de exibição. Do outro, o streaming. A discussão ganhou força durante a pandemia, quando os cinemas fecharam suas portas e as plataformas digitais assumiram, quase sozinhas, o papel de manter viva a circulação de filmes e séries. Não demorou para surgirem previsões apocalípticas.
Havia quem decretasse que aquele seria o fim definitivo das salas de cinema, assim como o VHS substituíra o rolo de filme e o DVD aposentara as fitas cassete. Pela lógica de muitos analistas, a tecnologia finalmente havia encontrado uma forma de tornar o cinema físico obsoleto.
A história, porém, costuma ser mais complexa do que as previsões feitas às pressas.
Seria desonesto negar a revolução promovida pelo streaming. Pela primeira vez, uma pessoa que mora em uma pequena cidade do interior pode assistir, no mesmo dia, a filmes produzidos na Coreia do Sul, no Irã, na Dinamarca ou na Argentina sem depender da programação de uma distribuidora local. Obras que antes ficavam restritas aos grandes festivais ou aos circuitos alternativos passaram a alcançar milhões de espectadores. O acesso ao audiovisual tornou-se mais democrático, mais amplo e mais diverso.
Ao mesmo tempo, essa transformação alterou a maneira como nos relacionamos com os filmes. Antes, existia uma espécie de ritual imposto pela própria indústria. O lançamento acontecia primeiro nas salas, meses depois chegava às locadoras, mais tarde à televisão. Havia uma espera inevitável. Hoje, essa lógica foi substituída pela instantaneidade. Em poucos segundos escolhemos um filme entre milhares de opções, interrompemos a exibição quando queremos, voltamos cenas, aceleramos diálogos e, se a história demora a nos conquistar, simplesmente abandonamos a sessão para começar outra. Nunca tivemos tanto controle sobre a experiência de assistir a um filme.
Mas controle e envolvimento nem sempre caminham juntos.
Existe uma diferença importante entre poder assistir a qualquer coisa e realmente se entregar a uma história.

Recentemente, o ator sueco Stellan Skarsgård, indicado ao Oscar por Valor Sentimental, chamou minha atenção ao defender aquilo que descreveu como o “habitat natural” dos filmes: as salas de cinema. A declaração poderia soar como um discurso nostálgico de alguém resistente às transformações do mercado, mas ela vai muito além disso. Skarsgård argumenta que alguns filmes precisam de tempo para encontrar seu público, crescendo pouco a pouco por meio das recomendações espontâneas entre espectadores, e não apenas impulsionados por campanhas publicitárias milionárias. Ao comparar o cinema ao movimento da “slow food”, que valoriza uma alimentação mais consciente e desacelerada, ele propõe uma ideia provocadora: e se os filmes também precisassem ser apreciados com calma?
A metáfora é interessante porque revela uma característica que parece cada vez mais rara em nossa relação com a cultura. Vivemos cercados por lançamentos permanentes. Assim que um filme estreia, outro já ocupa seu lugar na vitrine dos algoritmos. Somos incentivados a consumir rapidamente para abrir espaço para a próxima novidade. Nesse ritmo, até mesmo grandes obras correm o risco de desaparecer da conversa pública poucas semanas depois de chegarem ao catálogo de uma plataforma.
O cinema, por outro lado, sempre cultivou outro tempo. Um filme podia permanecer meses em cartaz, crescer pelo boca a boca e construir sua reputação lentamente, permitindo que a experiência fosse compartilhada entre diferentes públicos ao longo do tempo.
É evidente que essa dinâmica também mudou. As próprias salas de cinema enfrentam um cenário delicado. Dados recentes da Agência Nacional do Cinema (Ancine) mostram que o Brasil voltou a registrar uma redução no número de salas em funcionamento, passando de 3.545 para 3.538 unidades. Mais significativa ainda foi a queda no público: o total de ingressos vendidos passou de cerca de 126 milhões em 2024 para 113 milhões em 2025, uma retração de aproximadamente 10%.
Ao mesmo tempo, embora os investimentos públicos na produção audiovisual tenham aumentado de forma expressiva, grande parte desses recursos continua concentrada na realização de filmes, enquanto áreas fundamentais, como a distribuição e a formação de público, recebem parcelas muito menores dos investimentos.
Quando uma sala de cinema fecha, não estamos falando somente de um empreendimento que deixou de ser lucrativo. Estamos falando de um espaço cultural que desaparece. Em muitas cidades brasileiras, sobretudo fora dos grandes centros urbanos, o fechamento de um cinema significa eliminar completamente a possibilidade de acesso coletivo à experiência cinematográfica. Para quem cresceu em um município que já não possuía salas de exibição, essa realidade não é uma hipótese distante… Ela faz parte da minha própria história.
Ainda assim, não acredito que a resposta para esse cenário seja transformar streaming e salas de cinema em adversários. As plataformas digitais cumprem um papel fundamental na circulação das obras, ampliam o acesso, preservam filmes que dificilmente voltariam ao circuito comercial e permitem que espectadores descubram cinematografias inteiras sem sair de casa.
O problema não está na existência do streaming. Está na ideia de que ele seria capaz de substituir completamente aquilo que acontece quando um filme encontra seu público em uma sala escura.
Talvez a própria indústria esteja começando a perceber isso. Depois de alguns anos apostando em lançamentos simultâneos ou quase imediatos nas plataformas, grandes estúdios voltaram a defender janelas de exclusividade para as salas de cinema.
Existe uma compreensão crescente de que determinados filmes se tornam maiores justamente porque passam primeiro pelo cinema. Um sucesso de bilheteria não representa apenas arrecadação. Ele cria expectativa, gera conversas, transforma estreias em acontecimentos culturais e faz com que a chegada do filme ao streaming seja aguardada como uma continuação dessa trajetória, e não como seu ponto de partida.
O fenômeno conhecido como “Barbenheimer” talvez seja o exemplo mais evidente dessa lógica. Em 2023, Barbie e Oppenheimer transformaram um fim de semana comum em um evento global. Milhões de pessoas vestiram roupas temáticas, organizaram sessões duplas, lotaram cinemas e fizeram da experiência coletiva parte essencial daqueles filmes. Nenhuma plataforma de streaming, por mais eficiente que seja seu algoritmo, conseguiria produzir espontaneamente um movimento semelhante. Certos acontecimentos dependem da presença física de pessoas reunidas em torno de uma mesma história.
O streaming mudou a forma como consumimos filmes, e isso é irreversível. Mas consumir cinema e viver o cinema são experiências diferentes. Uma responde às necessidades da rotina. A outra continua alimentando algo muito mais difícil de definir, mas impossível de ignorar: o desejo humano de compartilhar histórias. E, quando esse desejo encontra o ambiente certo, talvez descubramos que algumas transformações tecnológicas não eliminam antigos rituais. Apenas nos lembram do valor que eles sempre tiveram.
Quando o filme acaba
Há algum tempo, passei a prestar atenção em um pequeno gesto que acontece ao fim de quase toda sessão de cinema. Assim que os créditos começam a subir, parte do público se levanta imediatamente. Alguns já pegam o celular, outros verificam as mensagens acumuladas, procuram a chave do carro, comentam rapidamente o filme enquanto caminham em direção à saída. Mas sempre existe um segundo grupo. É menor, mais silencioso e quase imperceptível. São as pessoas que permanecem sentadas por alguns instantes, mesmo quando não há cena pós-créditos. Elas não estão esperando uma surpresa. Estão apenas adiando o retorno ao mundo real. Como se precisassem de alguns minutos para reorganizar os pensamentos antes de atravessar novamente aquelas portas.
Sempre me identifiquei com esse segundo grupo.
Durante algumas horas, vivemos uma realidade completamente diferente da nossa. Conhecemos pessoas que nunca existiram, atravessamos conflitos que jamais enfrentamos, visitamos lugares impossíveis e sentimos emoções provocadas por acontecimentos fictícios. Então, de repente, tudo acaba. As luzes se acendem. O projetor é desligado. O som desaparece. Voltamos a ser apenas nós mesmos. Mas não exatamente os mesmos de antes.
Foi pensando nisso que comecei a questionar uma ideia repetida à exaustão nos últimos anos: a de que a experiência cinematográfica poderia ser integralmente transportada para dentro de casa. Quanto mais refletia sobre isso, mais percebia que a discussão parecia partir de uma premissa equivocada. Afinal, quando dizemos que amamos cinema, estamos falando apenas dos filmes? Ou estamos falando de tudo aquilo que acontece ao redor deles?
Durante anos, imaginei que a magia estivesse inteiramente na tela. Atribuí aos diretores, aos roteiristas, aos atores e aos compositores toda a responsabilidade por aquelas experiências que me acompanhavam muito depois dos créditos finais. Evidentemente, eles continuam sendo os grandes responsáveis por criar essas histórias. Mas, olhando para trás, percebo que havia outro elemento trabalhando silenciosamente durante todo esse tempo, um elemento ao qual eu nunca havia dedicado a devida atenção.
O lugar.
Não me refiro apenas às paredes, às poltronas ou à tecnologia de projeção. Refiro-me ao que aquele espaço representa. A sala de cinema é um ambiente projetado para uma única finalidade: permitir que uma história ocupe completamente nossa atenção. Em um mundo onde somos constantemente interrompidos por notificações, anúncios, mensagens e infinitas possibilidades de distração, existe algo quase revolucionário em um lugar cuja única proposta é nos convidar a permanecer presentes.
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É curioso perceber que quase todos os avanços tecnológicos das últimas décadas buscaram tornar nossa relação com o audiovisual mais prática. As telas ficaram menores e, ao mesmo tempo, mais acessíveis. Os catálogos tornaram-se praticamente infinitos. Hoje carregamos milhares de filmes no bolso, algo que parecia inimaginável há poucas décadas. Ganhamos liberdade para assistir ao que quisermos, quando quisermos e onde quisermos.
Mas talvez, sem perceber, tenhamos confundido liberdade com plenitude.
Porque existe uma diferença enorme entre ter acesso a um filme e viver plenamente a experiência que ele propõe.
Não é por acaso que diretores continuam discutindo desenho de som, tamanho de tela, projeção em película ou arquitetura das salas. Eles sabem que o cinema nunca foi apenas um arquivo de vídeo reproduzido em uma tela qualquer. O cinema sempre foi uma experiência cuidadosamente construída para envolver corpo, mente e emoção ao mesmo tempo.
Sempre achei bonito pensar que uma sala de cinema reúne pessoas que nunca se viram antes e que, muito provavelmente, jamais voltarão a se encontrar. Durante algumas horas, porém, todas elas respiram no mesmo ritmo narrativo. Riem das mesmas piadas, prendem a respiração diante dos mesmos perigos, emocionam-se com os mesmos reencontros. Vivemos uma época em que quase toda experiência cultural foi individualizada por algoritmos, mas o cinema continua insistindo em algo extraordinariamente simples: lembrar que histórias também são encontros.

Eu ainda acredito no futuro das salas de cinema, mesmo diante das transformações da indústria. Não porque imagino um retorno romântico ao passado ou porque desejo substituir o streaming. Ao contrário. Espero que ambos continuem coexistindo e ampliando as possibilidades de acesso à arte cinematográfica. O que me parece indispensável é preservar os lugares onde o cinema deixa de ser apenas conteúdo para voltar a ser experiência.
Sempre que uma sala fecha, perdemos um espaço de convivência, de imaginação e de memória. Perdemos um lugar onde crianças podem descobrir, pela primeira vez, que histórias têm o poder de transformar pessoas. Perdemos um ambiente onde casais vivem seus primeiros encontros, amigos compartilham risadas e futuros cineastas talvez encontrem a inspiração que definirá toda uma vida. É impossível medir estatisticamente o impacto de uma sala de cinema sobre a formação cultural de uma cidade. Algumas de suas contribuições simplesmente não cabem em planilhas.
Volto, então, àquela criança que deixou São Bento do Una para assistir a Homem de Ferro em Garanhuns. Durante muito tempo, pensei que minha lembrança mais preciosa daquela tarde estivesse relacionada ao filme. Hoje entendo que ela era maior do que isso. O que me encantou não foi apenas a história de um homem que constrói uma armadura para salvar o mundo. O que me encantou foi descobrir que existiam lugares capazes de fazer qualquer história parecer possível.
Os filmes podem, e devem, continuar chegando às nossas casas. Eles precisam circular, alcançar novos públicos e aproveitar todas as possibilidades que a tecnologia oferece. Mas algumas experiências continuam precisando de um lugar específico para acontecer.
Porque existem histórias que podem ser assistidas em qualquer tela. E existem histórias que precisam ser vividas. Essa é a magia do cinema!
Todas as vezes que saio de uma sala de cinema, tenho a estranha sensação de estar voltando de uma viagem. Porque, de certa forma, estou.




Texto esplêndido! Que análise maravilhosa sobre este que é uma assunto tão recorrente. Será que o cinema vai sumir? As plataformas de filmes vão substituir as salas de cinema? Não podem! A mágia precisa continuar. Sem cinema, sem telas, sem esta vivacidade de sentimentos, a arte se perde. Viver um filme, é não apenas ligar na TV ou numa plataforma de streaming. É sobre sair de casa, comprar pipoca ou passar numa Americanas da vida pra comprar comida mais barata. É sobre sair da zona de conforto e se permitir viver a experiência: de adentrar no desconhecido e mergulhar numa história. Cinema é vida, a vida imita a arte e o Cinematográfa conta a história do cinema: uma arte que é imitada pela vida. Obrigado por essa leitura e reflexão!