Uma carta de amor aos monstros: o “Frankenstein” de Guillermo del Toro

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8 de março de 2026 | 0 Comentários

Indicados ao Oscar 2026 | Melhor Filme

Há algo de inevitável em Guillermo del Toro dirigir Frankenstein. Ao longo de mais de três décadas de carreira, o cineasta mexicano construiu uma filmografia movida pela fascinação por criaturas, pelo imaginário gótico e pela beleza escondida no grotesco. Se em O Labirinto do Fauno, A Forma da Água ou mesmo em Pinóquio o diretor demonstrou sua capacidade de transformar monstros em metáforas profundamente humanas, a adaptação do romance de Mary Shelley parecia menos uma escolha e mais um destino. O resultado é um filme que exibe, em cada enquadramento, o amor quase devocional de Del Toro pela obra.

Visualmente, Frankenstein é exatamente o que se espera de Del Toro: um espetáculo artesanal, minuciosamente concebido, que aposta em cenários práticos, maquiagem elaborada e uma direção de arte que transforma cada espaço em extensão do drama. O diretor reafirma aqui uma de suas marcas autorais mais fortes: a capacidade de construir mundos palpáveis, nos quais a fantasia e o horror parecem brotar da matéria concreta. O filme é, antes de tudo, um exercício de cinema manual, engenhoso e detalhista, que reforça o fascínio do cineasta pela materialidade das imagens em um momento em que o cinema comercial frequentemente se apoia no excesso de computação gráfica.

No centro dessa maquinaria estética está a tragédia que acompanha Victor Frankenstein (Oscar Isaac), o cientista obcecado em desafiar a morte, e a criatura que ele traz à vida. Se Isaac encarna um Victor dominado pela arrogância e pela obsessão, é Jacob Elordi quem acaba assumindo o coração do filme. Sob camadas de próteses e maquiagem, sua Criatura carrega uma melancolia silenciosa que transforma o monstro em vítima – talvez o gesto mais fiel ao espírito do romance de Shelley.

Foto: Netflix/Divulgação.

É justamente nesse deslocamento de perspectiva que Frankenstein encontra seus momentos mais fortes. Quando a narrativa se volta para a experiência da Criatura (sua solidão, sua incompreensão e sua busca desesperada por pertencimento) o filme revela uma sensibilidade rara dentro de uma história tantas vezes adaptada. A criatura de Elordi um reflexo doloroso da irresponsabilidade de seu criador, reforçando a dimensão trágica da narrativa – uma fábula sombria sobre as consequências de brincar de Deus.

Ainda assim, a grandiosidade do projeto nem sempre encontra equilíbrio dramático. Em alguns momentos, o longa parece preso à própria reverência ao material original e ao imaginário que o cerca, como se Del Toro estivesse mais preocupado em provar a escala de sua adaptação do que em encontrar novas camadas narrativas para uma história já tão conhecida. Personagens secundários (como os interpretados por Mia Goth e Christoph Waltz) acabam subaproveitados, enquanto certas escolhas estéticas destoam do refinamento artesanal que domina o restante do filme.

Nada disso transforma Frankenstein em um fracasso. Trata-se de uma obra fascinante de se observar, um projeto que respira paixão e que evidencia o quanto Del Toro entende – e ama! – o universo que está adaptando. Belíssimo e tecnicamente impressionante, Frankenstein confirma a habilidade do cineasta em dar forma aos seus monstros, mesmo quando a criatura que nasce desse processo parece um pouco menos viva do que poderia ser.

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