Indicados ao Oscar 2026 | Melhor Filme
Com Bugonia, Yorgos Lanthimos volta ao território que marcou boa parte de sua carreira: histórias estranhas, personagens desconfortáveis e uma observação ácida do comportamento humano. Depois do sucesso de Poor Things, o diretor grego apresenta um filme que mistura suspense, humor sombrio e crítica social, usando o absurdo como forma de olhar para o presente.
Livremente inspirado no sul-coreano Save the Green Planet!, o filme parte de uma premissa curiosa. Teddy (Jesse Plemons) e seu primo Don sequestram Michelle (Emma Stone), uma poderosa executiva do setor farmacêutico. A motivação? Teddy acredita que ela é uma alienígena infiltrada na Terra, enviada para destruir o planeta. A partir daí, o filme se transforma em um jogo psicológico entre sequestradores e vítima, sempre mantendo o espectador em dúvida sobre o que, afinal, é delírio ou possibilidade.
A história poderia facilmente virar apenas uma comédia absurda sobre teorias da conspiração. Lanthimos, porém, usa essa situação para olhar para temas bem atuais: a disseminação de desinformação, o negacionismo, a desigualdade social e a crise ecológica. Em Bugonia, essas questões aparecem misturadas à paranoia do protagonista, criando um retrato estranho, mas bastante reconhecível do mundo em que vivemos.
Grande parte do filme funciona por causa da relação entre Teddy e Michelle. Jesse Plemons constrói um personagem inquietante justamente por sua convicção. Teddy realmente acredita estar salvando o planeta. Essa certeza absoluta (mesmo quando tudo indica o contrário) dá ao personagem uma mistura curiosa de fragilidade e ameaça.
Do outro lado está Michelle, interpretada por Emma Stone com uma presença magnética. A personagem permanece quase sempre controlada, mesmo diante da situação absurda em que se encontra. O resultado é um jogo de poder constante entre os dois: quem está manipulando quem? A cada conversa, o filme parece inverter as posições entre vítima e sequestrador, e essa tensão mantém a narrativa interessante do começo ao fim.

Outro elemento importante aparece no próprio título do filme. “Bugonia” vem de uma antiga crença segundo a qual abelhas poderiam nascer do corpo de um boi morto. A imagem, estranha e quase absurda, dialoga com a obsessão de Teddy pelo desaparecimento das abelhas – um fenômeno real ligado à crise ambiental global. Lanthimos usa essa ideia como metáfora para um mundo em colapso, em que as tentativas humanas de encontrar sentido muitas vezes acabam gerando ainda mais confusão.
Visualmente, o diretor mantém muitos dos elementos que já viraram sua marca. Os enquadramentos rígidos, os silêncios desconfortáveis e o humor seco continuam presentes. Ao mesmo tempo, Bugonia parece buscar uma narrativa um pouco mais direta do que alguns trabalhos anteriores do cineasta. O filme continua estranho, mas menos hermético.
Isso não significa que o longa represente uma mudança radical na carreira de Lanthimos. Na verdade, o filme conversa bastante com temas que ele já explorou antes: relações de poder, estruturas sociais absurdas e personagens presos em sistemas que parecem impossíveis de escapar. A diferença é que aqui tudo se conecta diretamente com questões muito presentes no debate atual.
Ainda assim, Bugonia talvez não seja o trabalho mais marcante do diretor. Mesmo com ideias interessantes e ótimas performances, o filme às vezes dá a sensação de estar revisitando caminhos que Lanthimos já percorreu antes. Nada disso, porém, diminui o quanto o filme é envolvente. Bugonia prende a atenção justamente por sua estranheza e pelo modo como mistura humor e desconforto.
O que permanece é essa sensação de inquietação. Bugonia sugere que o verdadeiro absurdo talvez não esteja apenas na mente de seus personagens – mas no próprio mundo em que eles vivem. E é justamente nesse espelho distorcido que o filme encontra sua força.




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