“F1” acelera na pista e freia na narrativa

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20 de fevereiro de 2026 | 0 Comentários

Indicados ao Oscar 2026 | Melhor Filme

Eu costumo defender a ida ao cinema para qualquer tipo de filme. Nada substitui a experiência de entrar numa sala escura e ser transportada para outro universo, outra época, outra realidade. O cinema, enquanto espaço físico, ainda carrega uma potência que nenhum streaming (por mais conveniente que seja) consegue reproduzir integralmente. Mas há obras em que essa diferença é, além de perceptível, determinante. F1: O Filme é um desses casos.

Dirigido por Joseph Kosinski, o longa foi concebido para a sala de cinema. E isso fica evidente desde os primeiros minutos. A câmera se posiciona dentro do cockpit, acompanha a vibração do volante, desce até o asfalto, oscila com as curvas. O desenho de som constrói uma experiência quase física: o ronco do motor funciona como elemento narrativo. A montagem organiza essa intensidade de maneira calculada, alternando tensão e silêncio com precisão. A trilha de Hans Zimmer funciona muito bem, sem sufocar o som mecânico das pistas.

F1 é um desses casos que fazem o espectador afundar na poltrona do cinema, tomado pela sensação de estar dentro de um carro de corrida, imerso na própria pista. Há algo particularmente instigante em assistir, na sala escura, a uma obra que assume como proposta explorar ao máximo as possibilidades do som e da imagem, levando ao limite aquilo que pode ser transmitido a quem está do outro lado da tela. Trata-se de técnica e criatividade operando em sua máxima potência.

O problema é que, quando o filme desacelera, a engrenagem narrativa não acompanha o mesmo nível de elaboração.

A história acompanha Sonny Hayes, interpretado por Brad Pitt, um ex-piloto promissor cuja carreira foi interrompida por um acidente. Décadas depois, ele é convidado a retornar à Fórmula 1 para integrar a equipe fictícia APX GP e orientar o jovem talento Joshua Pearce, vivido por Damson Idris. A estrutura dramática é conhecida: redenção tardia, conflito geracional, disputa de egos e eventual cooperação.

É mais interessante quando o espetáculo técnico caminha ao lado de um bom roteiro, de uma boa história com personagens que escapem do previsível. Aí já não é mais o caso de F1. Brad Pitt é, sem dúvida, um ator competente, com presença e domínio de cena. Mas seu personagem não deixa de carregar aquela imagem do grande homem másculo que sofre demais por ser um grande homem másculo numa história grandiosamente máscula – e F1 é exatamente isso.

Foto: “F1″/Divulgação

O roteiro sugere traumas, fracassos e arrependimentos no passado de Sonny, mas raramente aprofunda essas camadas. Seus conflitos são apresentados de forma funcional, servindo como combustível para o retorno às pistas, mas não se transformam em dilemas complexos. A relação com o jovem piloto segue o caminho esperado: tensão inicial, choque de personalidades, aprendizado mútuo. Não há grandes desvios, tampouco grandes riscos dramáticos.

Essa previsibilidade também se conecta ao contexto de produção do filme. Realizado com o apoio institucional da Fórmula 1 e filmado em circuitos oficiais, durante fins de semana reais de corrida, F1 assume uma postura claramente alinhada à imagem do esporte. O filme celebra a categoria, reforça seu glamour, destaca sua expansão internacional (especialmente no mercado norte-americano) e evita qualquer abordagem que possa tensionar sua estrutura política ou econômica. Não há interesse em explorar contradições internas, disputas institucionais ou conflitos mais profundos do universo esportivo. O foco é a experiência de correr.

E, nesse aspecto, o filme cumpre o que promete. As sequências de corrida são organizadas com clareza espacial, senso de perigo e ritmo envolvente. A combinação de câmeras instaladas nos carros, imagens captadas em alta velocidade e efeitos digitais integrados com discrição cria uma sensação de realismo consistente. Kosinski, que já havia trabalhado com esse modelo de ação em Top Gun: Maverick, reafirma aqui sua habilidade de transformar espetáculo técnico em experiência imersiva.

Ainda assim, quando se pensa na categoria de Melhor Filme no Oscar, a discussão muda de patamar. Não há aqui um grande enredo, tampouco uma grande solução para os conflitos do personagem central. As escolhas narrativas são seguras, o arco dramático é previsível e o desfecho cumpre sua função sem provocar maiores deslocamentos no espectador.

Talvez por isso cause estranhamento ver o longa entre os indicados ao prêmio máximo da Academia. F1 é eficiente, envolvente e pensado para impressionar na escala da tela grande. Massa as indicações técnicas, merecidas. Mas… melhor filme? Sei não.

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