“Uma Batalha Após a Outra”: cinema para um tempo sem trégua

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10 de fevereiro de 2026 | 0 Comentários

Indicados ao Oscar 2026 | Melhor Filme

Em Uma Batalha Após a Outra, Paul Thomas Anderson constrói um filme atravessado pela sensação de desgaste. A narrativa se organiza a partir de um mundo que não oferece pausas, no qual o conflito se mantém como estado permanente. Desde o início, a obra se posiciona como um retrato de um país em colapso contínuo, onde disputas políticas, estruturas autoritárias e traumas históricos permanecem ativos, ainda que reorganizados sob novas formas.

Inspirado livremente em Vineland, de Thomas Pynchon, o longa desloca o imaginário das lutas contraculturais dos anos 1960 e 1970 para um presente marcado pela hipermilitarização, pela vigilância e pela fragilidade democrática. Anderson não se preocupa em reconstituir um período específico, mas em estabelecer continuidades. O passado retorna como espectro, moldando comportamentos, instituições e relações pessoais. O que se vê é a permanência de um sistema que se adapta sem perder sua lógica repressiva.

Leonardo DiCaprio interpreta Bob Ferguson, ex-integrante de um grupo revolucionário que vive sob o peso de uma trajetória interrompida. O personagem surge isolado, instável e cercado por mecanismos de controle que nunca deixaram de operar. A reentrada forçada nesse universo ocorre quando o Coronel Lockjaw (Sean Penn) reaparece após anos de ausência e sequestra sua filha, Willa. A partir daí, o filme articula uma narrativa em que a dimensão política se manifesta por meio de uma urgência familiar, conectando estruturas de poder a experiências íntimas.

Willa, vivida por Chase Infiniti, ocupa uma posição central na arquitetura temática do filme. A personagem carrega, de forma silenciosa, a memória de conflitos que antecedem sua própria existência. Sua presença aponta para a transmissão geracional da violência e para a naturalização do estado de exceção. Anderson sugere que o legado das disputas políticas não se encerra com seus agentes diretos, mas se infiltra na formação de quem nasce depois.

A encenação recusa estabilidade. A montagem trabalha com elipses, deslocamentos e rupturas temporais que acompanham a fragmentação dos personagens. A fotografia em 35mm, assinada por Michael Bauman, constrói uma relação constante entre espaços abertos e zonas de confinamento, reforçando a sensação de trânsito contínuo e de ausência de abrigo. O espaço nunca se organiza como refúgio; funciona como extensão do conflito.

A trilha sonora de Jonny Greenwood opera como elemento estruturante da narrativa. Seus temas recorrentes estabelecem um ritmo que atravessa as cenas, sustentando a tensão e orientando o fluxo dramático. A música organiza o tempo do filme, marcando avanços, pausas e deslocamentos internos.

As performances seguem uma linha de composição que evita idealizações. DiCaprio constrói um Bob trapalhão a partir de falhas, lapsos e contradições, delineando um personagem que sobrevive sem jamais se recompor por completo. Sean Penn, como Lockjaw, encarna a persistência do autoritarismo enquanto figura institucional, menos interessado em complexidade psicológica do que em representar a continuidade da violência estatal. Teyana Taylor, como Perfidia, permanece como presença difusa, operando mais como força ideológica e memória do que como personagem tradicional.

Uma Batalha Após a Outra aborda a repetição histórica do autoritarismo, a erosão da memória política e a normalização da vigilância. Esses elementos se articulam sem discurso direto, integrados à dinâmica narrativa e às relações entre os personagens. O filme sugere que o esquecimento não dissolve estruturas de poder; apenas permite que elas se reorganizem.

O título sintetiza o argumento central da obra: a ideia de que os conflitos não se encerram, apenas se sucedem. A tentativa de Bob de proteger a filha se insere nesse movimento maior, funcionando como gesto de contenção em um cenário onde a resolução definitiva não se apresenta como possibilidade. O futuro, aqui, surge como território em disputa permanente.

Aliás, é um filme engraçadíssimo. Viva la revolution!

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