“O Agente Secreto” transforma o thriller político em retrato sensível de um país em apagamento

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27 de janeiro de 2026 | 1 Comentário

Indicados ao Oscar 2026 | Melhor Filme

Sou uma grande admiradora do cinema de Kleber Mendonça Filho e acompanho sua filmografia como quem coleciona figurinhas raras: cada novo trabalho parece dialogar com os anteriores, sem jamais se repetir. Em O Agente Secreto, o diretor retoma temas e gestos já reconhecíveis de sua obra, mas os expande com uma ambição inédita. O resultado é um filme de escala ampla, que se apropria do thriller político e do cinema de espionagem para construir uma narrativa densa, envolvente e profundamente brasileira – quase um blockbuster autoral, no melhor sentido do termo.

Ambientado em 1977, durante a ditadura militar, o longa acompanha Marcelo (Wagner Moura), um homem que retorna a Recife sob uma identidade falsa, carregando um passado que insiste em não ser completamente revelado. A ditadura militar atravessa O Agente Secreto como um dado de época, sem ser anunciada como motor evidente da narrativa. O filme prefere incorporá-la ao tecido do cotidiano, deixando que seus efeitos apareçam na maneira como os personagens se comportam, se relacionam e lidam com o medo. Ao observar como a violência institucional se infiltra na vida comum, a obra reforça a necessidade de seguir debatendo, por meio da arte, um dos períodos mais cruéis da história brasileira.

Kleber Mendonça Filho demonstra, mais uma vez, habilidade em dialogar com o cinema de gênero para discutir questões políticas e sociais. Aqui, os códigos do filme de espionagem (identidades falsas, perseguições, telefonemas secretos) são incorporados com naturalidade, servindo menos ao espetáculo e mais à construção de uma atmosfera de constante vigilância e apagamento. O suspense se estabelece de forma gradual, em um ritmo paciente, interessado mais nas consequências do medo do que em reviravoltas imediatas.

Foto: Victor Jucá/Divulgação

Nesse percurso, Wagner Moura entrega uma de suas atuações mais contidas e eficazes. Seu Marcelo é um protagonista silencioso, atravessado por perdas e pela necessidade de seguir em movimento. Moura constrói o personagem a partir de nuances: pequenos gestos, olhares carregados de melancolia e uma presença que sustenta o filme mesmo nos momentos de maior contemplação. É um protagonista cativante não por grandiosidade, mas por humanidade – alguém cuja história desperta empatia justamente por aquilo que lhe foi retirado.

Outro elemento central da narrativa é Recife, que funciona como verdadeiro personagem do filme. Cidade de força cultural incontornável, marcada por uma história rica e por uma beleza que resiste ao tempo, ela surge viva, contraditória e atravessada por memórias. Sou suspeita para falar, afinal é a cidade em que vivo e pela qual nutro um afeto evidente, mas Kleber Mendonça Filho filma ruas, prédios e espaços urbanos com um olhar atento e quase arqueológico, interessado tanto no que permanece quanto no que foi apagado. Locais emblemáticos ganham peso simbólico, reforçando sua reflexão sobre a destruição física e simbólica dos espaços coletivos.

Esse mergulho na década de 1970 é potencializado pelo belíssimo trabalho de Thales Junqueira na direção de arte, assinado com precisão e sensibilidade. A recriação do Recife daquele período é detalhada e convincente, conduzindo o espectador por uma cidade marcada por contrastes, memória e tensão histórica. Em diálogo com a fotografia, o filme constrói uma atmosfera que situa a narrativa no tempo e no espaço de forma orgânica, sem recorrer a excessos formais, fazendo da cidade um elemento ativo na experiência do espectador.

Ao final, Kleber Mendonça Filho conduz O Agente Secreto como um filme intenso e cativante, que guia o espectador por uma narrativa marcada por tensão, afeto e memória. A obra entende que a história de Marcelo é apenas uma entre muitas, e que o Brasil ainda tenta compreender tudo aquilo que foi destruído ou silenciado ao longo do tempo. É bonito acompanhar a trajetória dessa obra potente ganhando o mundo, passando por festivais, premiações e encontrando seu público. Por aqui, sigo torcendo pelo sucesso dessa jornada com O Agente Secreto.

1 Comentário

  1. Yrka Leandro

    Excelente! Leitura clara e muito atrativa. Parabéns!!

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