Indicados ao Oscar 2026 | Melhor Filme
Em meio à temporada de premiações, alguns títulos rapidamente se consolidam como protagonistas das conversas cinéfilas. Pecadores, Marty Supreme, Valor Sentimental e O Agente Secreto circulam com força nas redes, nas análises e nos debates críticos. Sonhos de Trem, por outro lado, parece ter seguido um caminho mais silencioso – ainda que figure entre os indicados a Melhor Filme no Oscar de 2026. O silêncio, no entanto, não poderia ser mais enganoso: trata-se de uma das obras mais sensíveis e contemplativas do ano.
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Dirigido por Clint Bentley e disponível na Netflix, Sonhos de Trem (2025) adapta a novela homônima de Denis Johnson para narrar a trajetória de Robert Grainier (Joel Edgerton), um operário ferroviário que vive no oeste americano do início do século XX. Acompanhamos sua existência atravessada por perdas profundas, isolamento e pela rápida transformação de um território que deixa de ser selvagem para se tornar símbolo do progresso industrial dos Estados Unidos.
Desde os primeiros minutos, o filme deixa claro que não está interessado em grandes feitos ou jornadas heroicas. Robert é um homem comum, parte da engrenagem que constrói pontes, trilhos e estruturas que conectam o país. O que move a narrativa não é a grandiosidade histórica, mas a experiência íntima desse indivíduo diante do tempo, da dor e da sobrevivência. Após uma tragédia familiar devastadora, o personagem passa a lidar com o luto não como um evento isolado, mas como uma presença constante, que molda sua forma de existir no mundo.
Há, também, uma dimensão social que atravessa essa trajetória. Ao longo de sua vida errante, Robert testemunha de perto o racismo e a violência direcionados a trabalhadores imigrantes, revelando uma face menos romantizada do processo de expansão americana. Esses episódios não são tratados como eixo central da narrativa, mas surgem de maneira orgânica, reforçando a ideia de um país que se constrói a partir de exclusões, silenciamentos e desigualdades estruturais.

A força de Sonhos de Trem reside justamente na recusa ao dramatismo excessivo. O roteiro prefere a observação à explicação, interessando-se menos por acontecimentos pontuais e mais pela poesia que emerge do acúmulo dos dias. O cotidiano de Grainier é ora extraordinário, ora banal, e é nessa alternância que o filme encontra sua potência.
Robert não deixa grandes legados nem realiza feitos memoráveis, mas sua trajetória é representativa. Há algo de universal em sua experiência, mesmo que ela esteja ancorada em um tempo e espaço muito específicos. Em certos momentos, sua figura remete, ainda que de forma distante e sensorial, a personagens como Arthur Morgan (Red Dead Redemption 2): homens moldados pelo trabalho duro, pela natureza e pela passagem implacável do tempo, tentando entender seu lugar em um mundo que muda rápido demais.
Essa relação entre indivíduo, natureza e progresso é um dos eixos centrais do filme. As florestas, as montanhas e as paisagens funcionam como espelhos do estado interno dos personagens. Sonhos de Trem compreende seus sujeitos como parte de um ecossistema: eles criam, destroem, desafiam e são desafiados pelo ambiente ao redor. O avanço tecnológico, simbolizado pelos trilhos, pontes e, mais adiante, pelo surgimento do avião, aparece tanto como promessa quanto como ameaça.
A fotografia de Adolpho Veloso se impõe como um dos grandes destaques do filme. Indicado ao Oscar, o diretor de fotografia brasileiro entrega imagens de tirar o fôlego, marcadas por enquadramentos precisos, composições cuidadosas e um uso delicado da luz. A câmera observa com paciência, engrandecendo o silêncio e permitindo que o tempo se manifeste dentro do plano.
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Joel Edgerton encontra em Robert Grainier um espaço ideal para explorar suas melhores qualidades como ator. Seu exterior rígido e contido contrasta com a vulnerabilidade que emerge em pequenos gestos e olhares. Grainier se torna, ao mesmo tempo, guia e espelho: é através dele que o espectador observa como o tempo e as condições moldam o homem e o mundo ao seu redor.
Sonhos de Trem é, acima de tudo, um filme sobre testemunhar. Testemunhar o passar do tempo, a transformação da terra, a dissolução de mistérios e a persistência da vida apesar da perda. Sentimental sem cair no sentimentalismo barato, a obra entende seus personagens como parte de um todo maior, integrado à fauna, à flora e às estruturas sociais que os cercam.




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