O jornalismo sobre cinema, historicamente ligado a jornais impressos, revistas especializadas e cadernos de cultura, vem passando por um processo de transformação com a consolidação das redes sociais como espaço central de circulação de conteúdo. Vídeos curtos, análises em linguagem acessível, debates e curiosidades sobre o audiovisual disputam atenção em plataformas como Instagram e TikTok, reposicionando a crítica e o jornalismo cultural em um ambiente marcado pela velocidade, pelo algoritmo e pela multiplicidade de estímulos.
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Nesse cenário, jornalistas que atuam nas redes sociais assumem um papel estratégico na mediação entre o cinema e novos públicos, expandindo o alcance do debate para além do leitor tradicional de cultura. É o caso de Isabella Faria, jornalista multimídia, crítica de cinema, roteirista e criadora de conteúdo, com passagens por veículos como CNN Brasil e Folha de S.Paulo, além de atuação como colunista na Peliplat BR. Nas redes, Isabella soma atualmente mais de 224 mil seguidores no Instagram e 55,3 mil no TikTok, onde produz vídeos dedicados à análise de filmes, premiações, história do cinema e discussões críticas sobre o audiovisual.
Como estudante de jornalismo prestes a ingressar no último período do curso e interessada em construir uma trajetória profissional voltada para o cinema, proponho aqui uma reflexão sobre os desafios, as possibilidades e as responsabilidades de produzir jornalismo cultural em plataformas digitais. Em um cenário em que as redes sociais se consolidam como espaço central de circulação de conteúdo, o jornalismo sobre cinema passa a ser atravessado por novas dinâmicas de linguagem, de alcance e de relação com o público, o que impacta diretamente a forma como a crítica cinematográfica é construída e compartilhada.
A discussão passa pela necessidade de repensar formatos sem abrir mão de profundidade, contexto e rigor crítico, mesmo diante das exigências de síntese e velocidade próprias das redes. Também entram em jogo os limites e os diálogos entre jornalismo cultural e criação de conteúdo, a influência do engajamento nas decisões editoriais e os caminhos possíveis para jovens jornalistas que desejam falar sobre cinema nesses ambientes de maneira ética, consistente e comprometida com a reflexão.
Abaixo, você confere a entrevista completa. Boa leitura!


O jornalismo sobre cinema sempre existiu em jornais, revistas e sites especializados. Na sua visão, o que muda quando esse conteúdo passa a ser produzido majoritariamente para as redes sociais?
Eu acho que muda muita coisa quando a gente fala de rede social. Muda, inclusive, a lógica do cinema, de falar sobre cinema, porque, nas redes sociais, o jornalismo de cinema, como eu faço, deixa de falar só com um público que já é interessado – que é um público que ia acessar, por exemplo, a sessão de cultura do jornal – e passa a disputar a atenção praticamente dentro de um ambiente que tem muito estímulo, que são as redes sociais.
O que faz com que a gente desenvolva estratégias narrativas por causa do algoritmo, para que a gente seja entregue às pessoas que têm rede social: estratégias narrativas diretas, visuais, mas que também criem, pelo menos, a chance de ampliar o alcance do debate sobre cinema. Eu acho que o desafio é não confundir a linguagem acessível com superficialidade. O conteúdo pode ser mais curto, pode ser informal, mas isso não significa abrir mão, por exemplo, de repertório e do próprio senso crítico, que é o que eu tento fazer. Eu tento ser bem crítica.
Como jornalista, quais são os principais cuidados que você tem ao falar de cinema em vídeos curtos, que muitas vezes exigem síntese e rapidez, sem perder profundidade ou responsabilidade jornalística?
Eu acho que o principal cuidado é justamente esse: entender que uma síntese, um resumo, não pode ser algo simplificado só por ser simplificado, algo raso, sabe? Em vídeos curtos, eu tento ser muito clara sobre o que eu estou fazendo, inclusive se é uma crítica, se é uma análise, se é só uma opinião ou se é um quadro humorístico.
Eu também evito dar informações categóricas sem base. Todos os meus vídeos têm muita base. Eu tomo cuidado com alguns recortes que podem, sei lá, distorcer o sentido de um filme. Eu acho que a profundidade, às vezes, não está na quantidade de informação que você passa, mas na escolha das informações que você passa.
Hoje vemos conteúdos sobre cinema que misturam crítica, curiosidades, opinião pessoal e entretenimento. Onde você enxerga o limite (ou o diálogo) entre o jornalismo cultural e a criação de conteúdo nas redes?
Eu acho que o jornalismo cultural tem que se apropriar dessas ferramentas de rede social para se comunicar melhor. Eu acho isso porque, às vezes, críticos de jornais, revistas e da mídia impressa acham que são maiores do que as redes sociais.
Eles acham que iriam se rebaixar se começassem a reproduzir o conteúdo das colunas ou das matérias em vídeos curtos. Para eles, isso seria um rebaixamento e, querendo ou não, é onde o público está. Jornais e revistas têm cada vez menos assinantes, certo?
Porém, a gente também tem o outro lado, que é quando a lógica do engajamento dita totalmente o conteúdo que você faz. Isso esvazia a análise, transforma tudo em algoritmo, clickbait, ragebait, em uma provocação mais vazia. Existem esses dois lados. Para mim, o jornalismo continua sendo o compromisso com contexto, com responsabilidade.
Você também é colunista na Peliplat BR. Como essa experiência em uma plataforma mais voltada à escrita dialoga com o seu trabalho em vídeo nas redes sociais?
Eu gosto muito de escrever na Peliplat, porque o texto me permite desenvolver ideias com mais espaço. Eu consigo explorar melhor as nuances de um filme em movimento, organizar o pensamento de uma forma mais aprofundada. E isso dialoga diretamente com o meu trabalho em vídeo também, porque muitas reflexões começam no texto e depois são adaptadas para outro formato, ou vice-versa.
Ao mesmo tempo, os vídeos me ajudam a pensar a escrita de uma forma mais clara também. Acho que um formato alimenta o outro.
Para você, de que forma o jornalismo cultural nas redes pode contribuir para formar um olhar mais crítico do público sobre filmes e o audiovisual em geral?
Eu acho que o jornalismo cultural nas redes funciona muito bem como uma porta de entrada para o olhar crítico. Nem todo mundo vai querer ler uma crítica longa, vai querer ler um ensaio, mas às vezes pode se interessar por um assunto a partir de um vídeo, entendeu?
Uma pergunta bem colocada, um gancho bom, pode atrair a pessoa para um vídeo que, às vezes, traz um conteúdo sobre, sei lá, Béla Tarr, que é um diretor que já fez um filme de sete horas, Sátántangó. Então, eu acho que, a partir disso, dessa curiosidade do público, as pessoas começam a perceber que os filmes também não são só bons ou ruins. É a partir desse formato que a pessoa fica mais curiosa.
Eu acho que, quando você faz vídeos curtos, não consegue aprofundar tudo o que gostaria sobre um filme ou um movimento, mas pode atiçar a curiosidade da pessoa.


Como você tem percebido o retorno do público nas redes sociais aos seus conteúdos sobre cinema? De que forma esse diálogo com a audiência influencia (ou não) a maneira como você pensa e produz o jornalismo audiovisual?
Eu tenho uma base muito boa no meu Instagram, principalmente porque recebo pouquíssimo hate. As pessoas vêm até mim nos comentários perguntando coisas, vêm nas minhas mensagens, e isso é muito legal. Eu fico muito feliz em relação a isso.
Minha base é muito boa, mas, nos comentários, claro, às vezes surgem discordâncias entre as pessoas. Ainda assim, por incrível que pareça, é tudo feito com muita educação. Então, eu fico muito feliz. Eu acho que, obviamente, preciso escutar também o que as pessoas querem que eu faça em relação ao meu conteúdo, porque eu faço meu conteúdo para elas, querendo ou não. Mas eu também não posso abrir mão da minha autonomia editorial, digamos assim.
Que conselhos você daria para estudantes de jornalismo ou jovens jornalistas que desejam falar sobre cinema nas redes sociais?
Meu principal conselho é: vejam filmes, porque a coisa que mais existe hoje em dia são críticos de cinema que não gostam de filmes. Então, primeiro, vejam filmes; depois, construam repertório em relação a esses filmes. Leiam críticos diferentes, entendam a história do cinema e do audiovisual, leiam livros, escutem música, vão a museus, porque uma arte não existe no vácuo.
Uma crítica de cinema não existe no vácuo. Ela está imbuída dentro da sociedade. Então, se você vai analisar um filme, precisa analisar o contexto histórico em que ele foi lançado, quem é a diretora ou o diretor, qual era a situação dessas pessoas quando fizeram o filme. É preciso ter repertório.
E tudo bem: nas redes é tentador buscar fórmulas rápidas de sucesso, um viral que talvez venha. Mas o que sustenta um trabalho a longo prazo é a consistência. Você tem que ser consistente, curioso e honesto com o seu público de forma intelectual. Falar sobre o que você realmente sabe. E, principalmente, diferenciar opinião de apuração, de crítica de fato.
Essa distinção é fundamental para quem vem do jornalismo em si.




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